domingo, 4 de janeiro de 2015

O dia em que vovó cheirou a rosas




As seis horas da manhã tudo estava nítido. Juliana acabava de sair do banho com aquele cheiro irritante de rosas, que me lembrava velório. Lucas, como sempre, passava longe do banho, e seu cheiro conseguia ser mais desagradável que o de minha irmã. Éramos três filhos, papai, mamãe, brutus, nosso sagui (Sim, temos um sagui!) e vovó. Não entendo por que, mas geralmente ela fica de fora quando algum de nós descreve a família.
Tomei banho e café, não necessariamente nessa ordem, e fui pegar o ônibus pra escola. Engraçado era a maneira como vovó me olhava, triste. Dei um beijo nela e saí, ela me chamou de Pedro e sorriu. Não que meu nome seja esse, me chamo Carlos, mas ela nunca acerta meu nome, ou o de qualquer um dos netos. Engraçado mesmo é que ela nunca acerta meu nome, mas sempre me chama de Pedro. Se pode lembrar de mim como Pedro, por que não lembra de mim como Carlos? Vai entender a vovó.
Cheguei da escola, chamei por mamãe. Ninguém respondeu.
Fui até a cozinha, brutus devorava as frutas na cesta. Alguém esqueceu de prender a corrente do pé dele. Será que foi a vovó outra vez? Vovó esquece das coisas, confunde tudo, e depois fica chorando por que não sabe o que fez. Papai diz ser mal de velho, mamãe diz que é azulme, ou algo assim. Azulme é uma doença que dá na cabeça de gente velha, não sei o que faz direito, mas faz vovó e mamãe chorar. Deve doer muito.
Já me preparava para ligar pra polícia (mamãe diz que se eu encontrar a casa vazia tenho que ligar pra polícia e me esconder) quando o carro papai estacionou lá fora. Corri ao encontro dele. Lá estava mamãe, chorando como alguém que tem um machucado muito feio. Nunca vi ela chorar tanto, nem com azulme. Procurei por vovó, ela não estava lá.
Depois, só me lembro de um monte de gente chegando lá em casa. Titias e titios inundaram a casa com os rostos sempre cheios de lágrimas, ou com óculos escuros, onde só dava pra ver poucas lágrimas escorrendo pelo rosto. Um cheiro forte de rosas por todo lugar me fazia pensar onde estaria Juliana. Onde estaria vovó? De repente senti vontade de chorar.
Procurei por meus irmãos, eles também choravam, até Lucas. Percebi uma caixa enorme no centro da sala, cheia de flores e que cheirava a rosas. Eu já tinha visto aquilo quando vovô morreu. Percebi que era a vovó que estava ali.
Chorei, mas não lembro direito o motivo. Acho que foi saudades, ou por não ter achado mamãe e papai. Vovó estava quietinha ali, não chorei por isso. Ela estava dormindo, mas parecia feliz, acho que o azulme não estava mais doendo, e acho que ela estava feliz, por que pela primeira vez estava cheia de gente ao seu redor. Finalmente vovó lembrou disso, por que finalmente minha família lembrou de vovó.

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